Eles Tão De Ácido
Existem discos compostos sob efeito das drogas. E existem um disco que é o efeito das drogas. "Cottonwoodhill" [Bellaphon, 1971], primeiro álbum do Brainticket, entra na segunda categoria. A capa do vinil trazia alguns avisos: "Não ouça esse álbum mais de uma vez por dia ou seu cérebro será destruído!" era um deles. Assim, o coletivo de formação mutante capitaneado pelo músico belga Joel Vandroogenbroeck surgiu traduzindo musicalmente o significado de bad trip. REALLY BAD.
O álbum começa com duas canções relativamente convencionais para justificar o aviso e a fama. Black Sand, a primeira delas, traz guitarra distorcida e orgão sobre uma batida funk, lembrando mais o rock negro (desculpem a expressão) dos EUA (Jimi Hendrix, Funkadelic...) do que os contemporâneos mais famosos do kraut-rock, como Can, Faust ou Tangerine Dream. Em seguida, Places Of Light surge mais fluída, com sopro marcante, apresentando Dawn Muir, a peça chave de "Cottondowhill". O poema declamado serve como mais um aviso, mas o groove da faixa acaba tornando a poesia em acessório. Uma frase se destaca: "Você, quando menos esperar, vai perder a sua almaaaaaaaa". A viagem começou...
Barulho de coisas quebrando e então um riff. Infinitamente, o mesmo riff. Carros, gente gritando, um despertador. E o mesmo riff. Alguém escova o dente, sirenes começam a tocar. E o mesmo riff. Ela sussura desesperadamente. Ela quer que pare, ela quer que continue. Pura paranóia. O que aconteceu? Como aquele disco se transformou nesse? Quando esse riff vai parar? O riff some. E volta. Até que macacos e a Quinta Sinfonia se misturam para anunciar a conclusão da viagem. Engano. É só o meio do caminho.
A canção recomeça e a viagem entra no período de maior turbulência. A pobrezinha celebra e duvida (d)a própria existência num curto espaço de tempo. Chega a um ponto de desorientação em que o efeito passa a ser quase contagioso. Incomoda e fascina ao mesmo tempo. Nos minutos finais do álbum, a voz se exalta mas é abafada por camadas sonoras embaralhadas e irreconhecíveis. O corte abrupto tem a intenção de levar o ouvinte de volta à realidade. É nesse hora que você deveria pensar que Dawn Muir estava apenas lendo e interpretando poesia. E que todos os sons perturbadores são resultado da programação eletrônica executada de forma competentíssima pelo tecladista Hellmuth Kolbe. Mas não dá para pensar nisso. As reações mais comuns são: 1) Desligar o computador, cair no chão e desmaiar; 2) Tentar salvar a coitada das garras do monstro imaginário ou 3) Procurar urgentemente provar do mesmo fubá experimentado pela moça descontrolada.
Demonstrando a condição única do álbum, o Brainticket lançou, três anos depois, um trabalho bem mais convencional e melódico ("Psychonaut"). "Cottonwoodhill" é um experiência tão drástica que nem os próprios criadores ousaram repeti-la. O outro aviso impresso na capa reforça ainda mais o mito insinuando que "após ouvir esse álbum seus amigos podem não te reconhecer". Você quer experimentar?
Brainticket - Cottonwoodhill - 97
Ano: 1971
Origem: Alemanha
Gênero: Krautrock/Psicodelia/Experimental
IN Picks: Brainticket
Pra quem gosta de: Can, Jefferson Airplane, Embryo
- Cheque os comentários e deixe o seu!
O álbum começa com duas canções relativamente convencionais para justificar o aviso e a fama. Black Sand, a primeira delas, traz guitarra distorcida e orgão sobre uma batida funk, lembrando mais o rock negro (desculpem a expressão) dos EUA (Jimi Hendrix, Funkadelic...) do que os contemporâneos mais famosos do kraut-rock, como Can, Faust ou Tangerine Dream. Em seguida, Places Of Light surge mais fluída, com sopro marcante, apresentando Dawn Muir, a peça chave de "Cottondowhill". O poema declamado serve como mais um aviso, mas o groove da faixa acaba tornando a poesia em acessório. Uma frase se destaca: "Você, quando menos esperar, vai perder a sua almaaaaaaaa". A viagem começou...
Barulho de coisas quebrando e então um riff. Infinitamente, o mesmo riff. Carros, gente gritando, um despertador. E o mesmo riff. Alguém escova o dente, sirenes começam a tocar. E o mesmo riff. Ela sussura desesperadamente. Ela quer que pare, ela quer que continue. Pura paranóia. O que aconteceu? Como aquele disco se transformou nesse? Quando esse riff vai parar? O riff some. E volta. Até que macacos e a Quinta Sinfonia se misturam para anunciar a conclusão da viagem. Engano. É só o meio do caminho.
A canção recomeça e a viagem entra no período de maior turbulência. A pobrezinha celebra e duvida (d)a própria existência num curto espaço de tempo. Chega a um ponto de desorientação em que o efeito passa a ser quase contagioso. Incomoda e fascina ao mesmo tempo. Nos minutos finais do álbum, a voz se exalta mas é abafada por camadas sonoras embaralhadas e irreconhecíveis. O corte abrupto tem a intenção de levar o ouvinte de volta à realidade. É nesse hora que você deveria pensar que Dawn Muir estava apenas lendo e interpretando poesia. E que todos os sons perturbadores são resultado da programação eletrônica executada de forma competentíssima pelo tecladista Hellmuth Kolbe. Mas não dá para pensar nisso. As reações mais comuns são: 1) Desligar o computador, cair no chão e desmaiar; 2) Tentar salvar a coitada das garras do monstro imaginário ou 3) Procurar urgentemente provar do mesmo fubá experimentado pela moça descontrolada.
Demonstrando a condição única do álbum, o Brainticket lançou, três anos depois, um trabalho bem mais convencional e melódico ("Psychonaut"). "Cottonwoodhill" é um experiência tão drástica que nem os próprios criadores ousaram repeti-la. O outro aviso impresso na capa reforça ainda mais o mito insinuando que "após ouvir esse álbum seus amigos podem não te reconhecer". Você quer experimentar?
Brainticket - Cottonwoodhill - 97
Ano: 1971
Origem: Alemanha
Gênero: Krautrock/Psicodelia/Experimental
IN Picks: Brainticket
Pra quem gosta de: Can, Jefferson Airplane, Embryo
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